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Não confundir com Stendhal. É mesmo Estendal, esse apuradíssimo instrumento de aferição civilizacional.
A menina Isabelinha olhou com ansiedade para o relógio de pulso, para verificar, mais uma vez, que a sua hora de almoço estava quase a acabar. Hora de almoço era maneira de dizer, que a hora de almoço da menina Isabelinha raramente ultrapassava os quarenta minutos, quarenta e cinco em dias muito bons. Na verdade, a menina Isabelinha nada podia afirmar em relação às outras pessoas, mas tinha a mais absoluta certeza que, no que lhe dizia respeito, as horas não tinham todas sessenta minutos, conforme a sua professora Cecília tantas vezes insistira. Só assim se poderia explicar a forma maldosa como a última hora do seu turno conseguia surripiar para si os minutos sistematicamente desaparecidos da hora do almoço. Adiante.
Olhou para a montra da tabacaria e não resistiu a entrar. Cumprimentou a funcionária, brasileira pequenina, generosa de carnes e de coração. ‘Vou só ver as novidades, tá bem, Shirlei?’ disse, acenando na direcção das revistas. A perdição da menina Isabelinha eram as revistas do social. Gostava de ver pessoas bonitas, endinheiradas e de vidas perfeitas. Gostava de saber onde iam, o que vestiam e onde viviam estas pessoas tão longínquas e tão luminosas. Observava-as assim, à distância imensurável de simples folhas de papel, com a curiosidade de uma criança que observa as constelações com o seu primeiro telescópio.
Voltou a olhar para o relógio. Suspirou e encaminhou-se com ar resignado para o Cantinho da Costura. A patroa não tardava e as bainhas não se faziam sozinhas.